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Quarta-feira de cinzas

Lembra-te ó homem que és pó e em pó te hás-de tornar
Gen 3, 19

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Tempo de Quaresma

Este tempo de Quaresma é uma travessia. Quem atravessa o deserto precisa de água, de bússola e, sobretudo, da convicção de que vale a pena caminhar e alcançar o fim, a meta desejada. Temos metas? Quais? Temos água? O apoio de Deus, a sua força, não falha. E a bússola? Quem é que nos dá uma palavra ou mão amiga a partir da experiência?

Vasco P. Magalhães, sj

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Responder ao Amor de Deus

Mensagem do Sr. D. António Couto, Bispo de Lamego, para a Quaresma

«1. Na sua mensagem para esta Quaresma, vivida em pleno Ano da Fé, o Papa Bento XVI convida-nos a entrelaçar a fé e o amor. Assim: é de Deus a iniciativa de vir amorosamente ao nosso encontro (Dei Verbum, n.os 2 e 21), e é dele o primeiro movimento de amor em relação a nós (1 João 4,10 e 19), quando em nós nada havia de amável (Romanos 5,8). Portanto, diz bem o Apóstolo: «o amor vem de Deus» (1 João 4,7a).
 
2. A este Deus que toma a iniciativa de vir ao nosso encontro por amor, e a nós se entrega por amor, só nos compete responder pela fé, que é a nossa entrega pessoal a Deus, implicando todas as nossas energias, faculdades e capacidades, também o nosso amor (Dei Verbum, n.º 5), que o amor primeiro de Deus em nós faz nascer. É outra vez verdade o que diz o Apóstolo: «Quem ama, nasceu de Deus» (João 4,7b). E é assim também que a nossa fé é verificada pelo amor.
 
3. Mas como Deus não veio apenas ao meu encontro para só a mim se entregar por amor e só em mim fazer nascer o amor, mas veio ao encontro de todos e a todos se entregou por amor, então a minha fé é verificada pelo meu amor a Deus e a todos os meus irmãos amados por Deus. Diz bem outra vez o Apóstolo: «Quem não ama o seu irmão, que bem vê, não pode amar a Deus, que não vê» (João 4,20).
 
4. E o Apóstolo insiste em pôr diante dos nossos olhos esta chave de verificação: «Nós sabemos que passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos. Quem não ama, permanece na morte» (1 João 3,14). A verdadeira morte não é então o termo da vida, mas aquilo que, desde o princípio, impede de nascer: o não acolhimento do Deus que vem por amor, para, por amor, fazer nascer em nós o amor e novas e impensáveis pautas de fraternidade.
 
5. Sim, então o amor ou a caridade não cabe, longe disso, naquilo que habitualmente designamos por solidariedade ou ajuda humanitária. O amor ou a caridade desborda sempre dessas realidades, e impele-nos ao anúncio do Evangelho, que é mostrar Deus que vem por amor ao nosso encontro, para nos servir o amor e fazer nascer em nós, como resposta, o serviço humilde, próximo e dedicado do amor.
 
6. Por isso, o tempo da Quaresma é um tempo diferente. Não é o tempo segmentado de chrónos, em que se sucedem os dias e as horas, mas um tempo novo e insuspeitado, que a Bíblia chama kairós, que se mede, não pela quantidade, mas pela qualidade, não pelo que passa, mas pela plenitude: trata-se da enchente da Palavra de Deus que, inundando a nossa vida, reclama a nossa resposta amante e transforma a nossa vida.
 
7. Um visitante estrangeiro foi visitar o famoso rabino polaco Hofez Chaim, e ficou espantado quando viu que a casa do rabino era apenas um simples quarto cheio de livros, e os únicos móveis eram uma mesa e um pequeno banco. «Mestre, onde estão os teus móveis?», perguntou o visitante. «E os teus onde estão?», retorquiu o rabino. «Os meus? Mas eu sou um visitante; estou aqui apenas de passagem», respondeu o visitante. «Também eu», retorquiu o rabino.
 
8. Sim, convenhamos que acabámos de assistir a uma eloquente lição de «renúncia» aos bens terrenos. Mas facilmente nos apercebemos que o termo «renúncia», hoje, nesta cultura de «Laodiceia» em que vivemos, e que obedece ao refrão «sou rico, enriqueci, e não preciso de nada» (Apocalipse 3,17), está claramente fora de moda e resulta incompreensível. «Deixar é perder», repetem tranquilamente os maus mestres.
 
9. Mas o Mestre mesmo, que é Jesus, ensina-nos a «renunciar» às coisas e até a nós mesmos, às nossas gorduras materiais e espirituais. «Renunciar» é «dizer não». Aos pesos que atrapalham a suavidade e a leveza que nos configuram ao Mestre (Mateus 11,28-30). A Quaresma é este tempo novo, não nosso, de fazer um verdadeiro jejum na nossa vida. Jejuar não é deixar de comer hoje, para comer amanhã. De nada nos valeria. Jejuar é olhar para a nossa vida, para a nossa casa e para a nossa mesa, até perceber que tudo é dom de Deus, não apenas para mim, mas para todos os seus filhos e meus irmãos, e, agir em consequência, partilhando com todos a minha vida, a minha casa, a minha mesa.
 
10. Apelo, portanto, a todos os irmãos e irmãs que Deus me deu nesta querida Diocese de Lamego a que, nesta Quaresma, deixemos a enxurrada da Palavra de Deus tomar conta da nossa vida. No meio da enxurrada, perceberemos logo que não salvaremos muitas coisas, e que aquilo que mais queremos encontrar é uma mão segura que nos ajude a salvar a nossa vida.
 
11. Aí está o tempo santo da Quaresma. Já estamos a sentir a mão de Deus (Isaías 41,13; 42,6; 45,1; Jeremias 31,32). Demos também a nossa mão aos nossos irmãos mais necessitados. Por isso e para isso, proponho que façamos um verdadeiro caminho de «renúncia» quaresmal. Como já fizemos o ano passado, convido-vos a olhar por e para os nossos irmãos de perto e de longe. Vamos destinar uma parte da nossa «renúncia» quaresmal para o fundo solidário diocesano, para aliviar as dores dos nossos irmãos de perto que precisem da nossa ajuda. Olhando para os nossos irmãos de longe, vamos destinar outra parte do contributo da nossa caridade para as missões dos Padres Vicentinos espalhadas pelas zonas de Chókwe e Caniçado, no Vale do Rio Limpopo, Moçambique, grandemente devastadas pelas cheias, que ali provocaram dezenas de mortos e mais de 100 mil desalojados, e que deixam as populações pobres à mercê da fome e de doenças várias, como a cólera e a malária. A finalidade da nossa Renúncia Quaresmal será anunciada em todas as Igrejas da nossa Diocese no Domingo I da Quaresma, realizando-se a Colecta no Domingo de Ramos na Paixão do Senhor.
 
12. Com a ternura de Jesus Cristo, saúdo todas as crianças, jovens, adultos e idosos, catequistas, acólitos, leitores, escuteiros, cantores, ministros da comunhão, membros de todas as associações e movimentos, departamentos e serviços, todos os nossos seminaristas, todos os consagrados, todos os diáconos e sacerdotes que habitam e servem a nossa Diocese de Lamego ou estão ao serviço de outras Igrejas. Saúdo com particular afecto todos os doentes, carenciados e desempregados, e as famílias que atravessam dificuldades. Uma saudação especial aos nossos emigrantes.
 
Na certeza da minha oração e comunhão convosco, a todos vos abraça o vosso bispo António.
Lamego, 11, de Fevereiro de 2013»

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Santa Páscoa!

«Este mundo moderno não é apenas um mundo de mau cristianismo – isso seria o menos – mas um mundo não cristão, descristianizado.

O verdadeiro desastre está no facto de que as nossas próprias misérias já não são cristãs. Também havia maldade no tempo dos Romanos. Mas Jesus veio.
Ele não perdeu o seu tempo a queixar-se e a criticar a maldade desses tempos. Ele corta a direito.
De um modo muito simples. Fazendo o cristianismo.
Ele não se pôs a culpar, a acusar ninguém. Ele salvou.
Não culpou o mundo. Ele salvou o mundo.»
in Charles Péguy, Veronique

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Quaresma: Propostas litúrgicas para 2012

Hoje aqui fica (mais) uma sugestão:


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Quaresma

Hoje deixamos aqui duas sugestões de leitura para vivermos esta Quaresma de forma mais profunda e autêntica:

Mensagem do Santo Padre para esta Quaresma disponível aqui.

Mensagem quaresmal do Bispo de Lamego aqui.

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A coragem do Bispo Andrea Hao

Esta semana, na longínqua China, os cristãos de Gonghui estão de luto. Choram a morte do Bispo Andrea Hao Jinli. Tinha 95 anos e pertencia à Igreja Clandestina da China, a que se mantém fiel ao Papa.


Foi por ser cristão e por se ter mantido sempre fiel a Roma, que Andrea Hao conheceu, como tantos, as prisões chinesas. Foi acusado de quê? De ser cristão, apenas. Hao nasceu em 1916 numa família católica. Ele e dois irmãos decidiram seguir a vida religiosa. Ordenado padre, em 1943, foi logo condenado a 10 anos de prisão. Ao fim desse tempo, quando julgava que tinha chegado ao fim o seu tormento, foi mandado para um campo de concentração para ser "reeducado pelo trabalho". Esteve preso mais de vinte anos. Ninguém o vergou: nem o medo, nem os trabalhos forçados, nem as ameaças de morte, nem a violência na prisão. Dele só queriam essencialmente uma coisa: que, como padre, renunciasse a Roma. Nunca o fez. Ao fim deste tempo todo, as autoridades perceberam que de nada valia manterem-no fechado na prisão. Libertado, ao fim de três anos o Vaticano nomeia-o bispo da Diocese de Chongli. Bispo da Igreja Clandestina, a que se mantém fiel a Roma e não a Pequim, ao Partido Comunista Chinês. A vida de Andrea Hao é um exemplo para todos nós. Ele era um homem baixo, magro, de aparência frágil, mas, apesar disso nunca ninguém o conseguiu vencer, ninguém o conseguiu domar. Manteve-se sempre fiel ao Papa, continuou sempre fiel a Jesus Cristo. Mesmo agora, depois de morto, Andrea Hao continua a ser um embaraço para o governo da China. A polícia procurou que o funeral decorresse sem alarido, não se transformasse numa manifestação pública de fé da comunidade cristã local. Mas, apesar das ameaças, foram dezenas os fiéis que decidiram prestar uma última homenagem ao seu bispo, mesmo correndo o risco de serem também detidos. Que exemplo para nós, que estamos a viver a Páscoa neste ano de 2011. Em muitos países no mundo, como nós denunciamos na Fundação AIS – Ajuda à Igreja que Sofre – rezar, ter fé, implica coragem, muita coragem. Quantos de nós seríamos capazes de enfrentar a prisão, a tortura, o medo, a humilhação apenas para continuarmos a rezar, apenas para continuarmos a dizer que somos cristãos? Quantos de nós teríamos a coragem do Bispo Andrea Hao?


Catarina Martins Bettencourt RR on-line

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Operação SOL

Amigos,
dia 13 de Março temos o Encontro de Preparação para a Quaresma em Tarouca com o tema "Operação SOL - Sacrifício, Oração, Libertação".
O encontro começa às 9h e tem o encerramento às 17h. Oferta do almoço aos participantes.
As confirmações devem chegar ao SDPJ até dia 28 de Fevereiro.
Qualquer dúvida perguntem!! Até lá!!

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Domingo de Páscoa

O Domingo de Páscoa, ou a Vigília Pascal, é o dia em que até mesmo a mais pobre igreja se reveste com seus melhores ornamentos, é o ápice do ano litúrgico. É o aniversário do triunfo de Cristo. É a feliz conclusão do drama da Paixão e a alegria imensa depois da dor. E uma dor e alegria que se fundem pois se referem na história ao acontecimento mais importante da humanidade: a redenção e libertação do pecado da humanidade pelo Filho de Deus.

A festa da Páscoa é, antes de tudo, a representação do acontecimento chave da humanidade, a Ressurreição de Jesus depois de sua morte consentida por Ele para o resgate e a reabilitação do homem caído.
Páscoa é vitória, é o homem chamado à sua maior dignidade. Como não se alegrar pela vitória d'Aquele que tão injustamente foi condenado à paixão mais terrível e à morte de cruz?, pela vitória d'Aquele que anteriormente foi flagelado, esbofeteado, cuspido, com tanta desumana crueldade.

Este é o dia da esperança universal, o dia em que em torno ao ressuscitado, unem-se e se associam todos os sofrimentos humanos, as desolusões, as humilhações, as cruzes, a dignidade humana violada, a vida humana não respeitada. A Ressurreição nos revela a nossa vocação cristã e nossa missão: aproximá-la a todos os homens.

Creio na Ressurreição?, a proclamo?; creio em minha vocação e missão cristã, a vivo?; creio na ressurreição futura? , é alento para esta vida?, são perguntas que devem ser feitas.
A mensagem redentora da Páscoa não é outra coisa que a purificação total do homem, a libertação de seus egoísmos, de sua sensualidade, de seus complexos.

São Paulo o expressou com incontida emoção neste texto: " Se ressuscitastes com Cristo, então vos manifestareis gloriosos com Ele".

in Mensagensvirtuais.com.pt

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Mensagem da Quaresma

Entramos no santo tempo da Quaresma. Somos convidados a viver este grande retiro que a Igreja propõe aos fiéis, para preparar a Páscoa, num ambiente de espiritualidade, incrementado pela prática dos meios tradicionais de penitência e ascese cristã, particularmente recordados nesta altura: a oração, a esmola e o jejum. Lembra-os também o Santo Padre, na sua mensagem para a Quaresma. Nas nossas comunidades paroquiais mantém-se vivo o piedoso hábito da Via-Sacra. Em vários lugares, a celebração das “Quarenta Horas”, é, através da Adoração ao Santíssimo Sacramento e da pregação, ligadas ao Sacramento da Penitência e participação na Eucaristia, ocasião importante de reflexão e de conversão. É bom que alimentemos e intensifiquemos estas tradições, cultivando-as e valorizando-as com iniciativas que, sem lhe diminuírem a autenticidade e o fervor, suscitem o interesse e a participação de todos, designadamente dos nossos jovens. O tempo quaresmal é ocasião favorável para, individualmente ou em grupos, meditar e rezar mais assiduamente a Palavra de Deus. Porque não fomentar, neste Ano Paulino, a leitura das Cartas de S. Paulo, procurando aprofundar nelas o mais genuíno sentido da Páscoa e da Ressurreição? Que a Quaresma seja oportunidade também de as famílias cristãs sensibilizadas para a importância do Sacramento do Matrimónio, encontrarem tempo em cada dia para a oração familiar do terço, dando ao Lar o clima favorável ao crescimento da fé e tornando-o com mais verdade igreja doméstica.
A atenção aos outros, com gestos de acolhimento e de solidariedade, sobretudo aos pobres, aos doentes, aos idosos que experimentam a solidão, aos mais fragilizados e tantas vezes esquecidos e marginalizados, numa disponibilidade desinteressada e numa generosa partilha de tempo, de presença ou de bens materiais, interligada com a interioridade conseguida pela oração, é outro meio de melhorarmos a vivência cristã deste santo tempo. O lugar próprio para cultivarmos este comportamento é em primeiro lugar a comunidade paroquial, onde descobriremos necessidades e carências, às vezes silenciadas por vergonha, o que torna mais urgente a nossa solicitude. Vão-se multiplicando por iniciativa da Caritas Diocesana as assim denominadas lojas da partilha, facilitando a comunhão fraterna e alimentando o espírito de caridade que dá sentido ao viver cristão. Mas não limitaremos a atenção ao nosso meio. Pensaremos noutros que muito longe vivem situações de extrema pobreza geradoras de morte irremediável. O destino da nossa renúncia quaresmal é o Darfur, onde é missionário um sacerdote da nossa diocese, e cuja tragédia humana parece não acabar, e não pode ser ignorada por ninguém.

Na mensagem deste ano para a Quaresma, Sua Santidade Bento XVI destaca a prática do jejum, vivida por motivos autenticamente espirituais, “como «terapia» para curar tudo o que nos impede de nos conformarmos com a vontade de Deus”. No sentido próprio o jejum está ligado à privação de alimentos, mortificando pela sobriedade o paladar, mas poderemos abrir-lhe um horizonte mais vasto ligado a uma quantidade enorme de renúncias e pequenas mortificações: jejum de atitudes e de palavras, desde o uso moderado dos meios de comunicação, por exemplo, televisão, rádio, C.D., Internet, telemóvel, o próprio automóvel; até aos hábitos de descanso e lazer, tantas vezes expressão de preguiça e modo de malbaratar o tempo, com futilidades e má-língua; ou às atitudes de orgulho, amor-próprio, caprichos, auto-suficiência, que dificultam a mútua compreensão e tolerância, e impedem a obrigação de nos perdoarmos com magnanimidade…, as quais muito melhorarão a nossa vida cristã e tornarão mais dinâmico o nosso testemunho. Toda a ostentação, ou ganância são perversas e escandalosas, e em tempo de penúria para tanta gente, chega a ser insulto agressivo aos pobres. Se as renúncias referidas significarem economia material, poderão, além disso, valorizar extraordinariamente a partilha, não tanto pela quantidade, mas pelo espírito que traduzem.

Que a Mãe da Divina Graça e Senhora da Misericórdia nos acompanhe neste tempo favorável, para que, renascidos e purificados, celebremos com verdadeira alegria a Ressurreição do Senhor.

D. Jacinto Tomaz Botelho, bispo de Lamego

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A água e o deserto


À PROCURA DA PALAVRA
P. Vítor Gonçalves

DOMINGO I DA QUARESMA Ano B

“Jesus esteve no deserto quarenta dias”. Mc 1, 13

A água e o deserto

Água e deserto, aliança e tentação, opostos incontornáveis
do caminho que nos propõe a Páscoa como meta.
Tensão criadora a agitar a cinza dos dias e a fragilidade da terra,
espaço sem limites das escolhas que nos realizam.
Água do nascer e do renascer que nos definem,
entre o “já” e o “ainda não” de grandeza e miséria,
“todos os dias são nossos”, como dizia o poeta,
mas é também nossa a coragem de espalhar a aurora
e levantar rostos cansados e abatidos.
Deserto do apelo ao essencial que é sempre tão pouco,
(um sorriso, um abraço, “um sair de mim e ser amor contigo”),
lugar onde a conversão vai além da penitência,
a alegria de dar é mergulhar na realidade de alguém,
os gestos ecoam a mudança que acontece no silêncio.

Água para a travessia do deserto,
e terra seca que pode reaprender a lição do barro,
este é o tempo de confiar nas mãos de Quem faz aliança connosco
e as oferece cada dia para revelar
o que é belo e teimamos em esconder,
o que é verdade e teimamos em desprezar,
o que é bom e teimamos em esquecer.

Jorram os rios de água viva dos nossos corações
a empapar os desertos, que podem ser os prédios e as ruas,
e as casas, e os trabalhos, e as compras, e até os divertimentos,
onde tantas solidões se acumulam?
Bebemos e mergulhamos nesta água que é Cristo,
e, como a samaritana, ensinamos o caminho da fonte?
Guardamos cisternas ou ajudamos os desertos
a descobrir a Fonte que neles está?

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Quaresma

Quaresma, quarenta dias de especial actividade em que os cristãos preparam a Páscoa, a sua grande Festa: a da certeza que a vida tem sentido e a morte pode ser vencida.
Preparar a Páscoa, como? Nestes quarenta dias propõem-se três exercícios: a esmola, a oração, o jejum! O que significa: partilhar os bens, ligar-se ao essencial, desprender-se do que não interessa.
(Vasco P. Magalhães, in essejota.net)

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Sermão de quarta-feira de Cinzas (Padre António Vieira)

Em Roma, na Igreja de S. António dos Portugueses, Ano de 1670.

Memento homo, quia pulvis es, et in pulverem reverteris (1).

(1) Lembra-te homem, que és pó, e em pó te hás de converter.

I. O pó futuro, em que nos havemos de converter, é visível à vista, mas o pó presente, o pó que somos, como poderemos entender essa verdade? A resposta a essa dúvida será a matéria do presente discurso.
Duas coisas prega hoje a Igreja a todos os mortais, ambas grandes, ambas tristes, ambas temerosas, ambas certas. Mas uma de tal maneira certa e evidente, que não é necessário entendimento para crer: outra de tal maneira certa e dificultosa, que nenhum entendimento basta para a alcançar.
Uma é presente, outra futura, mas a futura vêem-na os olhos, a presente não a alcança o entendimento.
E que duas coisas enigmáticas são estas?

Pulvis es, tu in pulverem reverteris: Sois pó, e em pó vos haveis de converter.

— Sois pó, é a presente; em pó vos haveis de converter, é a futura.

O pó futuro, o pó em que nos havemos de converter, vêem-no os olhos; o pó presente, o pó que somos, nem os olhos o vêem, nem o entendimento o alcança.
Que me diga a Igreja que hei de ser pó: In pulverem reverteris, não é necessário fé nem entendimento para o crer.
Naquelas sepulturas, ou abertas ou cerradas, o estão vendo os olhos. Que dizem aquelas letras? Que cobrem aquelas pedras? As letras dizem pó, as pedras cobrem pó, e tudo o que ali há é o nada que havemos de ser: tudo pó.
Vamos, para maior exemplo e maior horror, a esses sepulcros recentes do Vaticano. Se perguntardes de quem são pó aquelas cinzas, responder-vos-ão os epitáfios, que só as distinguem: Aquele pó foi Urbano, aquele pó foi Inocêncio, aquele pó foi Alexandre, e este que ainda não está de todo desfeito, foi Clemente.
De sorte que para eu crer que hei de ser pó, não é necessário fé, nem entendimento, basta a vista.
Mas que me diga e me pregue hoje a mesma Igreja, regra da fé e da verdade, que não só hei de ser pó de futuro, senão que já sou pó de presente: Pulvis es?
Como o pode alcançar o entendimento, se os olhos estão vendo o contrário?
É possível que estes olhos que vêem, estes ouvidos que ouvem, esta língua que fala, estas mãos e estes braços que se movem, estes pés que andam e pisam, tudo isto, já hoje é pó: Pulvis es?
Argumento à Igreja com a mesma Igreja: Memento homo.
A Igreja diz-me, e supõe que sou homem: logo não sou pó.
O homem é uma substância vivente, sensitiva, racional.
O pó vive? Não.
Pois como é pó o vivente?
O pó sente? Não.
Pois como é pó o sensitivo?
O pó entende e discorre? Não.
Pois como é pó o racional?
Enfim, se me concedem que sou homem: Memento homo, como me pregam que sou pó: Quia pulvis es?

Nenhuma coisa nos podia estar melhor que não ter resposta nem solução esta dúvida. Mas a resposta e a solução dela será a matéria do nosso discurso. [ ...]

[...]

Em que cuidamos, e em que não cuidamos?
Homens mortais, homens imortais, se todos os dias podemos morrer, se cada dia nos imos chegando mais à morte, e ela a nós, não se acabe com este dia a memória da morte.
Resolução, resolução uma vez, que sem resolução nada se faz.
E para que esta resolução dure e não seja como outras, tomemos cada dia uma hora em que cuidemos bem naquela hora.
De vinte e quatro horas que tem o dia, por que se não dará uma hora à triste alma?

(23) Disse: Agora começo (Sl 76,11).
Esta é a melhor devoção e mais útil penitência, e mais agradável a Deus, que podeis fazer nesta quaresma.
Tomar uma hora cada dia, em que só por só com Deus e connosco cuidemos na nossa morte e na nossa vida.
E porque espero da vossa piedade e do vosso juízo que aceitareis este bom conselho, quero acabar deixando-vos quatro pontos de consideração para os quatro quartos desta hora.

Primeiro: quanto tenho vivido?
Segundo: como vivi?
Terceiro: quanto posso viver?
Quarto: como é bem que viva?

Torno a dizer para que vos fique na memória: Quanto tenho vivido? Como vivi? Quanto posso viver? Como é bem que viva? Memento homo!


Para ver o sermão completo: http://www.scribd.com/doc/2858980/Sermoes-Pe-Antonio-Vieira

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